Dormir junto, para as pessoas em geral, é um hábito universalmente praticado, pois reforça sentimentos como apego e segurança, além de estar diretamente associado a relações sociais como o casamento. Por muitos considerarem os animais de estimação como membros da família, eles passaram a ocupar espaços teoricamente exclusivos aos humanos, como o quarto e até mesmo a cama. Não há uma estatística brasileira clara, mas pesquisas revelam que, nos Estados Unidos, 37% dos cachorros e cerca de 30% dos gatos dividem o quarto e/ou a cama com seus donos. 

Há teorias que reforçam a importância dos cães para a formação dos primeiros grupamentos sociais. Inicialmente, foram aceitos por ajudarem a manter os humanos aquecidos em noites frias. Entretanto, por latirem ao menor sinal de intrusos e despertarem rapidamente, esses animais podem ser colaboradores da evolução por permitirem que nossa espécie dedicasse mais tempo ao próprio sono, já que agora há um “guarda” em prontidão para identificação de possíveis predadores durante o período noturno, avisando todo grupo sobre o perigo. 

Atualmente, há quem acredite que os benefícios de dormir junto com seu pet sejam indiscutíveis, enquanto outras pessoas sequer cogitam essa possibilidade. É fundamental esclarecer que, mesmo o  humano dividindo o mesmo quarto ou cama, há interferência de um no sono do outro. Automaticamente, o senso comum já nos leva a inferir que um animal de estimação poderia ser uma pior influência quando dorme junto com seu dono. No meio dessa polêmica, pesquisas recentes trouxeram informações interessantes sobre o verdadeiro impacto desse hábito no sono e na saúde de quem o pratica. Então, o que é mito ou verdade nesse cenário?

É VERDADE, sim, que há um impacto negativo dessa prática sobre a saúde respiratória. Sabe-se, por exemplo, que dormir com o próprio bichinho de estimação pode ser gatilho para doenças das vias aéreas, como rinite e asma. Isso pode ser ainda mais evidente em crianças, sendo um ponto crucial a se ponderar. Ao dividir o mesmo ambiente, principalmente a cama, os cuidados com a higiene e pelos do animal precisam ser rigorosos, já que o tempo de contato é relativamente longo ao dormirem juntos. Mas também é VERDADE, por outro lado, que compartilhar o ambiente de sono com o pet pode gerar segurança, reduzir o estresse e reforçar o cuidado entre as partes. 

Abordando especificamente o tema sono, os primeiros estudos demonstraram que os donos que dormem no mesmo quarto e, pior ainda, na mesma cama que seus bichinhos teriam menos qualidade de sono. Mesmo contando com a importante ferramenta da actigrafia em sua metodologia, essas pesquisas apresentaram algumas limitações: uma amostra pequena, pouco tempo de avaliação (apenas uma semana) e não houve ajustes para controlar a interferência do parceiro humano de cama. Outros estudos baseados somente no autorrelato tiveram resultados pouco expressivos. 

Mas, um estudo recente realizado com adolescentes e publicado neste ano, trouxe um dado no mínimo curioso: a pessoa que divide o quarto ou a cama com o seu pet (ambos avaliados com actigrafia) não teria um padrão de sono tão diferente quando comparado a quem não tem esse hábito. A principal diferença está exatamente se o animal dorme apenas no quarto ou divide a cama com o seu dono. Na segunda situação, houve sim uma redução da eficiência do sono quando comparada com a primeira. Portanto, é um MITO que o pet irá sempre atrapalhar o sono do humano, ou seja, o impacto pode não ser tão relevante quanto se pensava. 

Não há consenso sobre o tema e as evidências não podem ser tomadas como um encorajamento à prática. Há muitas variáveis a se levar em consideração: valores culturais, apego ao animal de estimação, idade de quem vai compartilhar a cama com ele, padrão de sono individual e comorbidades. No geral, os benefícios podem superar os prejuízos, mas essa decisão é complexa e deve ser particularizada. E nunca podemos esquecer: o sono e a saúde são sempre prioridades!

Texto produzido pelo Dr. George Pinheiro

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Dr. George do Lago Pinheiro é médico otorrinolaringologista, com atuação na área da Medicina do Sono. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 1. Hoffman CL, Browne M, Smith BP. Human-Animal Co-Sleeping: An Actigraphy-Based Assessment of Dogs’ Impacts on Women’s Nighttime Movements. Animals. 2020; 10(2):278. https://doi.org/10.3390/ani10020278 2. Rosano J, Howell T, Conduit R, Bennett P. Co-Sleeping between Adolescents and Their Pets May Not Impact Sleep Quality. Clocks Sleep. 2021 Jan 4;3(1):1-11. doi: 10.3390/clockssleep3010001. PMID: 33406702; PMCID: PMC7838871

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Texto publicado na Revista Sono – UMA PUBLICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO SONO – Edição 26 – 2021

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