O estudo “Genetically proxied diurnal preference, sleep timing, and risk of major depressive disorder” (Preferência diurna, horário de sono e risco de transtorno depressivo grave estimados geneticamente), publicado na JAMA Psychiatry, revelou que antecipar em uma hora o horário de ir para a cama e de acordar pode diminuir o risco de depressão grave em 23%. A Revista Sono conversou com a Dra. Céline Vetter, professora assistente de Fisiologia Integrativa na Universidade do Colorado Boulder, nos Estados Unidos, uma das pesquisadoras do estudo, para entender sobre a hipótese de que o horário de sono e a preferência diurna podem influenciar o risco de depressão. A Dra. Céline estuda ritmos circadianos, sono e epidemiologia de doenças crônicas.

Confira a entrevista: 

De acordo com o estudo publicado, parece haver uma associação protetora sobre a preferência de dormir mais cedo com o risco de desenvolver depressão. Como o estudo foi realizado? 

Céline Vetter – Utilizamos uma técnica de genética estatística chamada randomização Mendeliana, em que primeiro avaliamos a relação entre ser matutino e uma medida do sono (midsleep), além da relação entre ser matutino e o risco de depressão grave. Ao invés de usarmos questionários, usamos a preferência de horário de sono estimada geneticamente. A vantagem dessa abordagem de randomização mendeliana é que as associações resultantes são menos prováveis de serem causadas por outras influências, já que as variantes genéticas que herdamos são definidas no nascimento e alocadas aleatoriamente durante o desenvolvimento. 

Sabemos que estar deprimido pode afetar o sono, mas também há evidências de que o sono pode estar relacionado à depressão. O uso dessas abordagens genéticas nos ajuda a entender as relações potenciais de causa e efeito, uma vez que as variantes genéticas que influenciam a preferência do horário de sono não podem ser influenciadas pelo desenvolvimento de transtorno depressivo tardiamente. Além disso, nós mostramos o efeito ao longo da vida da matutinidade estimada geneticamente, o que demonstrou que dormir uma hora mais cedo altera o risco de transtorno depressivo grave. 

O método usou dados existentes de grandes bancos de dados biomédicos com informações sobre genética, dados objetivos e subjetivos do sono, bem como informações relatadas pelos participantes e diagnóstico de depressão. 

Quais foram os principais resultados obtidos neste estudo? 

Céline Vetter – Em um dos maiores estudos, 1/3 dos indivíduos pesquisados identificaram-se como matutinos, 9% disseram ser vespertinos e o restante ficou no meio. No geral, o meio-período do sono foi 3 horas da manhã, o que significa que eles iam para a cama às 23 horas e levantavam às 7 da manhã (assumindo 8 horas de sono). 

O estudo demonstrou que o tipo matutino apresenta uma probabilidade 23% menor de desenvolver transtorno depressivo a cada hora antecipada do meio-período de sono (mid sleep). Isso fornece mais evidências para a ligação entre o horário de dormir mais cedo e a redução do risco de depressão. 

Podemos entender que o estudo traz evidências de que o cronotipo – a propensão de uma pessoa a dormir em um determinado horário – pode influenciar o risco de depressão? 

Céline Vetter – O que fizemos foi avaliar, em intervalos de hora, o efeito protetor de ser matutino em relação ao risco de depressão. E mostramos que, usando esses instrumentos genéticos, o efeito ao longo da vida é de 23% por hora em que um matutino dorme mais cedo. Isso está de acordo com estudos transversais e prospectivos anteriores. Mecanismos plausíveis para o efeito protetor de ser uma pessoa matutina em relação à depressão incluem melhor alinhamento com os horários típicos de trabalho e descanso, maior e mais precoce exposição à luz diária e maior sensibilidade às características rítmicas do sistema de recompensa motivacional e afeto. 

É importante ter em mente que precisaremos de ensaios clínicos para permitir não apenas estabelecer se a relação potencialmente causal é verdadeira, como também avaliar e examinar os potenciais mecanismos comportamentais e fisiológicos dessa associação. Observe também que nosso estudo não fornece insights sobre se as mudanças de curto prazo no horário do sono beneficiam a saúde mental, portanto, há claramente muito trabalho pela frente. 

O que o novo sobre o tema pesquisado? 

Céline Vetter – Este estudo acrescenta evidências de várias maneiras: é um dos maiores até agora, combinando dados genéticos de mais de 840 mil indivíduos, incluindo dados de 85 mil que usaram rastreadores de sono por sete dias e 250 mil que preencheram questionários de preferência do sono. Além disso, usamos outro coorte independente com excelentes avaliações e dados psiquiátricos. Nossos novos métodos de genética estatística são menos sujeitos a influências de outros fatores, o que também é um ponto forte, pois permitem abordar a causalidade em conjuntos de dados observacionais. Claro, estudos de intervenção são necessários para acompanhar, mas junto com o conhecimento prévio, nossas descobertas reforçam substancialmente a hipótese de que o horário de sono e a preferência diurna podem de fato estar influenciando o risco de depressão. 

Como o estudo pode contribuir para o melhor entendimento do sono e sua relação com a saúde mental? 

Céline Vetter –  Embora precisemos de grandes ensaios clínicos randomizados para determinar definitivamente se ir para a cama mais cedo pode reduzir o risco de depressão, este estudo muda o peso da evidência para apoiar um efeito potencialmente causal do horário de sono na depressão. 

De acordo com a sua pesquisa, quais são os próximos desafios do estudo do sono? 

Céline Vetter –   Acredito que existe uma série de desafios e questões importantes para a área: 

1) Noções básicas sobre os obstáculos para a implementação de intervenções do sono, especialmente no que diz respeito a diversas populações; 

2) Compreender os potenciais efeitos em cascata da melhora do sono na saúde e no comportamento – é suficiente mudar e melhorar o sono para ver os efeitos positivos na saúde, ou precisamos maior redundância em comportamentos para maximizar o impacto?; 

3) Biomarcadores (digitais) de sono e saúde circadiana para que possamos ampliar os estudos observacionais e de intervenção. 

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REFERÊNCIA: Iyas Daghlas, BS; Jacqueline M. Lane, PhD; Richa Saxena, PhD; et al. Genetically Proxied Diurnal Preference, Sleep Timing, and Risk of Major Depressive Disorder. JAMA Psychiatry. Published online May 26, 2021. doi:10.1001/ jamapsychiatry.2021.0959

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Entrevista realizada por Fabiana Fontainha.

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Entrevista com a Dra Céline Vetter publicado na íntegra na Revista Sono –  UMA PUBLICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO SONO – Abril/Maio/Junho 2021

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