Hábitos e aspectos comportamentais adquiridos ao longo da vida, assim como fatores fisiológicos, impactam o sono do idoso.

Chegar na terceira idade mantendo um sono de qualidade e restaurador. Certamente esse é o desejo da maioria das pessoas. A dona de casa e feirante Emília Aparecida Venturini, de 67 anos, conta que sempre dormiu bem e mesmo quando entrou na menopausa não teve problemas de sono. “Falavam para mim que quando chega a menopausa temos insônia, mas não tive. Sou dorminhoca e sempre dormi bem, de 8 a 10 horas por noite e sinto que é uma necessidade do meu organismo. Sempre que posso também cochilo um pouco à tarde”, revela Emília. 

Emília diz que geralmente dorme a noite toda e só se levanta para beber água ou ir ao banheiro, mas logo volta para a cama. Eventualmente, se percebe que poderá ter problemas com o sono, já sabe como lidar com a situação . “Quando estou preocupada e ansiosa, ou se acontece de perder o sono de madrugada, o que é raro, tenho o costume de tomar chás de erva-doce ou capim cidreira, ou um leite morno pouco adoçado. Também leio, faço minhas orações e me tranquilizo. Acho que isso me ajuda muito”, conta a dona de casa. 

Emília Aparecida diz que nunca precisou tomar remédios para dormir e acredita que o sono de qualidade se deve aos hábitos saudáveis ao longo da vida. “Tenho um dia a dia muito ativo. Faço caminhadas ao ar livre pela manhã e costumo tomar sol, no mínimo, três vezes por semana, cuido da minha casa e trabalho fora, na feira”, detalha Emília. 

Para o médico geriatra Dr. Ronaldo Delmonte Piovezan, especialista em Medicina do Sono e pesquisador do Instituto do Sono e da Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (AFIP), dormir bem ao longo da vida favorece bons comportamentos de sono com o avançar da idade. Outro aspecto importante é que estudos mostram que dormir e acordar no mesmo horário todos os dias reduz o risco de problemas de saúde associados com a idade. “Pesquisas confirmam que a duração adequada de sono, aliada à boa qualidade do mesmo e ausência de distúrbios do sono na meia-idade, reduz o risco de doenças associadas ao envelhecimento , como demências, algumas neoplasias, infarto e AVC (Acidente Vascular Cerebral), diabetes, entre outras”, destaca. 

Mas a realidade da dona de casa Emília Aparecida Venturini não é a mesma de boa parte das pessoas. Segundo o Dr. Piovezan, com o avançar da idade, existem dois grupos de queixas comuns: sono insuficiente ou excesso de sonolência durante o dia, sendo que ambas sinalizam uma origem comum para o problema que surge com a idade e se refere na capacidade de gerar e controlar o sono. “Com os problemas de saúde que afetam os idosos, combinados ao envelhecimento cerebral que afeta áreas que geram e mantêm o sono adequado, muitos idosos dormem mal durante a noite e têm a tendência de inapropriadamente dormir em excesso durante o dia”, explica o médico geriatra.

Mais idade, mais problemas de sono 

Embora sintomas agudos de insônia sejam comuns e transitórios ao longo da vida, problemas de sono mais persistentes tendem a ocorrer com mais frequência com o avançar da idade, sendo que as principais doenças relacionadas ao envelhecimento sofrem impacto do sono ruim. “O risco de quedas e fraturas também tem sido associado a problemas de sono e, mais recentemente, a perda de massa muscular associada ao envelhecimento tem sido relacionada a padrões ruins de sono”, comenta Dr. Piovezan. 

O médico lembra que o sono envolve uma combinação de fatores orgânicos e comportamentais que t o r n a m persistentemente comprometidos. O idoso passa por processos de perdas importantes em diversas dimensões. “Não se trata apenas da saúde física ou mental, mas também de aspectos sociais, como aposentadoria, perda de familiares e amigos, falta de compromissos e interesses, que contribuem para a cronicidade de problemas de sono”, diz o Dr. Piovezan. 

O sono ao longo da vida 

O neurologista Dr. Luciano Ribeiro, especialista em Medicina do Sono e editor-chefe da Revista Sono, lembra que, desde bebês, o sono apresenta modificações próprias da idade. No início, o recém-nascido dorme quase o dia todo, acorda para comer e come para dormir, permanecendo num estado de sono. À medida que a criança cresce, o tempo é reduzido, permanecendo o sono noturno e os cochilos diurnos. 

Na adolescência, há alterações importantes, apresentando uma quantidade maior de sono, o que é natural. “Os adolescentes frequentemente apresentam alterações no ritmo e têm tendência a atrasar o início do sono, dormindo e acordando mais tarde”, diz Dr. Ribeiro. Na fase adulta, em geral, se estabelece uma quantidade de sono ideal correspondente a 1/3 das 24 horas, ou seja, cerca de 8 horas de sono por dia, o que significa que 30% do nosso tempo estamos dormindo. 

Já com a idade mais avançada, ocorrem novas alterações relacionadas à redução estrutural, anatômica e funcional responsáveis pelo ritmo vigília-sono, levando a uma desorganização funcional própria da idade. 

Durante o envelhecimento , ocorrem modificações não apenas em relação à quantidade de sono, mas também na estrutura do sono. “Ao analisarmos um exame de polissonografia, verificamos os estágios do sono e a presença de despertares noturnos que apresentam uma modificação na pessoa com idade mais avançada”, explica Dr. Ribeiro. Dessa forma, o sono do idoso modifica-se em função de alterações em macro e microestruturas cerebrais, pois dentro de cada estágio existem particularidades em que o cérebro produz ondas características de sono que vão se modificando também. 

Isso explica porque os idosos apresentam mais dificuldade para iniciar o sono, maior número de despertares noturnos, mesmo imperceptíveis, alteração nos estágios e na arquitetura do sono, muitas vezes com redução do sono mais profundo, em detrimento do aumento do sono mais superficial e fragmentado. 

Outro ponto é que o idoso tende a permanecer mais tempo na cama, o que foi intensificado com a pandemia da Covid-19 quando muitas pessoas perderam a motivação de levantar pela manhã devido à diminuição das atividades sociais rotineiras. “Todo o aspecto de tempo de cama e o sono começam a ficar mais fragmentados. O idoso cochila, acorda, dorme, modificando-se hábitos e comportamentos”, explica Dr. Ribeiro. 

Alterações hormonais 

Com o envelhecimento ocorre também a diminuição da produção de hormônios, o que altera não apenas a fisiologia do organismo como o monólito circadiano, por isso, o idoso tende a perder a noção de horário de dormir e acordar, tendo um sono muito fragmentado. “Ele vai mais cedo para a cama, mas fragmenta o sono e isso continua durante o dia, quando cochila e acorda várias vezes. Talvez o tempo total de sono não seja tão alterado, o problema é que o sono fica disperso, dissolvido nessas 24 horas, o que dá impressão à noite que o indivíduo tem insônia”, analisa o neurologista. 

Nesse aspecto, um dos fatores importantes nui ç ã a diminuição da melatonina que é um importante hormônio marcador do ritmo sono-vigília. “Provavelmente temos o envelhecimento do Sistema Nervoso Central em que ocorre a atrofia de estruturas responsáveis pela produção de melatonina”, explica Dr. Ribeiro. 

E na situação atual de pandemia, em que o idoso está mais isolado, geralmente dentro de casa num ambiente fechado e com pouca luz, esse contexto prejudica ainda mais a produção de melatonina que já está normalmente alterada devido aos aspectos fisiológicos do envelhecimento. 

Envelhecimento e apneia do sono 

Dados Estudo Epidemiológico Sono ( E P I S O N O ) mostram que diversas m u d a n ç a s o c o r re m  n o  s o n o  a o  l o n g o d o  e n v e l h e c i m e n t o  e  a l t e r a ç õ e s  d e composição corporal, como a úmulo gordura, perda de massa muscular e flacidez das vias aéreas, podem aumentar o risco de uma doença do sono comum entre os idosos, a apneia obstrutiva do sono (AOS). 

A AOS pode impactar de forma significativa a qualidade de vida do idoso, pois está associada à maior fragmentação e privação de sono, levando também à insônia. O estudo “Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono no Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo”, realizado com 1.042 voluntários e derivado do EPISONO, identificou pela primeira vez que 32,9% da população tem apneia do sono, sendo que a prevalência em pessoas entre 60 a 69 anos é de 60,2% e, nos idosos com 70 a 80 anos é ainda maior: 86,9%. 

Sono e memória 

Durante o sono, todas as funções do organismo são reprogramadas e restabelecidas, por isso, o sono tem um papel importante na cognição e consolidação da memória. “Estágios como o sono REM, que é a fase de sonhos e sono de ondas lentas, são importantes para a memória, pois é quando ocorre a produção de hormônios relacionados às funções cerebrais”, explica Dr. Luciano Ribeiro. 

O sono REM ocorre no terço final da noite. Quando o indivíduo desperta precocemente e fica privado de estágios específicos do sono, ocorre a privação do sono REM. “Isso significa que muitas vezes se está danificando certos estágios de sono que são importantes para o aprendizado e a memória”, diz Dr. Ribeiro. 

O neurologista lembra que alterações de sono REM também podem ocorrer pelo uso prolongado de medicamentos, como antidepressivos, ansiolíticos e diazepínicos, que reduzem essa fase do sono. “Hoje, a sociedade faz uso indiscriminado de muitos medicamentos e estudos mostram a associação de distúrbios de memória, doença de Alzheimer e uso crônico de substâncias que podem ser um fator agravante de problemas no futuro para um envelhecimento não tão saudável”, alerta.  

Autora: Dra. Fabiana Fontainha

REFERÊNCIAS 

1. Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LR. O b s t r u c t i v e s l e e p a p n e a s y n d r o m e i n t h e S a o Pa u l o epidemiologic sleep study. Sleep Med. 2010 May;11(5):441– 4 4 6 . h t t p s : // d o i . o r g / 1 0 . 1 0 1 6 / j . s l e e p . 2 0 0 9 . 1 0 . 0 0 5 2. Dados do Estudo Epidemiológico do Sono (EPISONO). Acessado em https://institutodosono.com/pesquisas/episono/ 

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Texto publicado originalmente na Revista Sono – Edição de Abril | Maio | Junho de 2021

UMA PUBLICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO SONO

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