Desde tempos longínquos, a relação entre o sono e a epilepsia já era reconhecida pelos gregos. Aristóteles acreditava que estados alterados de consciência, como sono ou convulsões, envolvia uma dissociação da alma e corpo, permitindo que nestes estados, o indivíduo tivesse visões ou revelações do futuro. No final de 1800, Gowers percebeu que cerca de 20% dos pacientes com epilepsia, sofria de suas convulsões apenas durante o sono. Com o surgimento do EEG, Gibbs descreveu aumento da atividade epileptiforme durante o sono e que em cerca de metade dos pacientes que tinham crises epiléticas tônico-clônicas generalizadas, estas predominavam no sono. (1)

De acordo com Clélia Franco, mestre em Neurologia pela Universidade Federal de São Paulo- Escola Paulista de Medicina, presidente do Capítulo Pernambucano da ABN e coordenadora do Departamento Científico de Sono da Academia, alguns fatores funcionam como gatilhos ou facilitadores para ocorrência de crises epiléticas ou convulsões: a privação de sono ou sua má qualidade, é um exemplo.

Ela relata que, em certos tipos de epilepsia, as convulsões podem ocorrer mais facilmente no momento do sono, no iniciar ou no despertar do mesmo. Pessoas com epilepsia podem ter um padrão de sono irregular, pois convulsões a qualquer hora da noite pode atrapalhar o sono e convulsões durante o dia podem afetar o sono da noite seguinte. Para algumas pessoas, os efeitos de uma convulsão podem perturbar seu padrão de sono por vários dias no após crise. (1)

Em estudo recente publicado no Arquivos de Neuropsiquiatria em 2019, Karapinar e col. (2) avaliaram o sono de 43 pacientes epiléticos comparando-os com 53 controles saudáveis, pareados por idade e gênero, com o objetivo de verificar a existência de transtornos do sono e a influência da presença e tipo de crises epiléticas no sono destes epiléticos. Os autores utilizaram as seguintes escalas e questionários para a análise da qualidade e queixas relativas ao sono para todos os participantes: Escala de Sonolência de Epworth, Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI), Escala do Grupo de Estudo Internacional de Avaliação da Síndrome das Pernas Inquietas, Questionário de Berlim e Inventário de Depressão de Beck (BDI). Através de entrevista, também avaliaram a presença de insônia para todos os participantes, baseado nos critérios diagnósticos do DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição. 

A partir deste estudo (2), Clélia Franco, que também é doutora em Neuropsiquiatria pela Universidade Federal de Pernambuco, comenta os principais achados relativos à interface clínica entre sono e epilepsia.  

Quais os principais distúrbios de sono em pacientes com epilepsia? Que hipóteses patofisiológicas explicam a associação?

A epilepsia é uma doença neurológica comum com prevalência populacional de 0,4-1%. O sono é um aspecto importante da vida em pacientes com epilepsia, pois apresentam maior propensão para distúrbios do sono do que a população geral. Epilepsia e sono têm uma interferência mútua. Convulsões diurnas e noturnas podem deteriorar a estrutura do sono. Pacientes com epilepsia, semelhante a população em geral, podem ter distúrbio do sono comórbido ao quadro epilético.

Os transtornos do humor, particularmente a depressão, são reconhecidos como apresentarem uma prevalência maior em pacientes com epilepsia do que a população em geral, o que também tem um efeito negativo no sono.

Apneia Obstrutiva do Sono e a privação do sono estão entre os mais comuns distúrbios do Sono na população em geral, afetando diretamente a qualidade do sono e, portanto, sendo fator de risco para desencadear crises em indivíduos epiléticos. Por sua vez, distúrbios respiratórios relacionados ao sono, como a apneia obstrutiva do sono, são considerados como contribuintes para a sonolência excessiva diurna em alguns pacientes com epilepsia. Aproximadamente um terço dos pacientes epiléticos que são avaliados para transtornos do sono, apresentam distúrbio respiratório do sono, sendo o mais comum, a apneia obstrutiva do sono.

Alguns dos fatores predisponentes para AOS incluem idade avançada, gênero masculino, obesidade e estreitamento orofaríngeo, uso de substâncias depressoras do Sistema Nervoso Central, fatores esses que podem estar associados em alguns indivíduos epiléticos. 

Sonolência diurna excessiva, pobre qualidade do sono e síndrome das pernas inquietas também são comuns em pacientes com epilepsia e pioram sua qualidade de vida.

A insônia é um frequente distúrbio do sono em pacientes com epilepsia, influenciando negativamente o humor. A origem da insônia pode estar associada a vários fatores, incluindo a epilepsia em si – com a frequência de crises noturnas que fragmenta o sono, efeito de medicamentos ou psicoestimulantes, estados ansiosos, medo, depressão, transtornos clínicos (como dor crônica, fibromialgia ou doenças respiratórias) ou outros transtornos psiquiátricos associados, que prejudiquem a qualidade do sono e/ou levem a dificuldade para iniciar ou manter o sono. 

Houve diferenças de distúrbios do sono entre os grupos epilepsia e controle? Sintomas depressivos têm impacto nessas distinções?

Pacientes com epilepsia apresentaram maior frequência de depressão do que os controles, com significância estatística (p<0,0001). E esses pacientes epiléticos com depressão tiveram pior resultado nas avaliações de qualidade do Sono (questionário de Berlim e escore total do PSQI), com significância estatística (p=0,002). 

Alguma característica da epilepsia (tipo de crise, presença de crises noturnas, tipo de fármacos epilépticos) teve associação com distúrbios do sono?

Segundo o estudo, a ocorrência de convulsões noturnas, o tipo de crise e tipo de medicamento utilizado não tiveram efeito sobre o sono (p>0,05).

Qual a principal conclusão do estudo que devemos levar para a prática clínica?

 Os autores concluíram que a presença de depressão, mais do que a epilepsia, afeta negativamente o sono de epiléticos, sugerindo que todos os pacientes devem ser questionados sobre seu humor e queixas de sono. 

REFERÊNCIAS: 

  1. LANIGAR S, BANDYOPADHYAY S. Sleep and Epilepsy: a complex interplay. Mo Med. 2017. 114(6): 453–457.
  2. KARAPINAR, Edanur et al. Depression is a major determinant of sleep abnormalities in patients with epilepsy. Arquivos de Neuro-Psiquiatria [online]. 2020, v. 78, n. 12 [Accessed 20 January 2022], pp. 772-777. Available from: <https://doi.org/10.1590/0004-282X20200064&gt;. Epub 14 Dec 2020. ISSN 1678-4227. https://doi.org/10.1590/0004-282X20200064

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