É razoavelmente frequente a ocorrência de transtornos psiquiátricos em pacientes de esclerose múltipla (EM). O estudo Suicidal ideation, anxiety, and depression in patients with multiple sclerosis (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2018000500296) detectou alta prevalência de depressão e ansiedade, além de maior taxa de ideação suicida em portadores de EM, ao compará-los com a população geral.

O autor Carlos Bernardo Tauil, professor da Universidade Católica de Brasília, mestre em Neurologia pela USP e em Neuroimunologia pela Universidade de Barcelona, aprofunda o debate sobre o tema em entrevista. Confira aqui.

Qual a relação dos sintomas dolorosos, fadiga e depressão em pessoas com esclerose múltipla?

A relação entre sintomas dolorosos, fadiga e depressão é muito íntima entre os pacientes com EM. Esta relação é intuitiva quando observamos que são três dos sintomas mais comuns entre estes pacientes, demostrados em inquéritos estatísticos com boa qualidade de dados como aqueles realizados nos países nórdicos que têm alta prevalência de esclerose múltipla. Porém esta relação ultrapassa as relações estatísticas, pois tem processos fisiopatológicos com vias comuns. Podemos associar também entre estes sintomas os transtornos do sono que também está relacionado.

Por que depressão e ansiedade são tão mais prevalentes em pessoas com esclerose múltipla que na população geral? É apenas consequência de se conviver com uma doença crônica ou existem influências de fatores anatômicos e imunológicos?

Além da depressão e a ansiedade ser mais prevalente pois a esclerose múltipla acomete principalmente a faixa etária de adultos jovens, interrompendo projetos de vida e profissionais destes pacientes, a depressão e ansiedade tem origem em alterações de vias da inflamação que por exemplo consomem triptofano em uma via catabólica denominada kinureína, lembrando que o triptofano é um aminoácido que origina a produção de serotonina que por sua vez é um neurotransmissor estabilizador de estados depressivos e ansiosos. Muitos autores consideram hoje que a depressão e ansiedade são doenças inflamatórias.

Por que os autores decidiram avaliar também a presença de ideação suicida?

Nosso objetivo principal inicialmente era realizar uma triagem utilizando as escalas Beck e as escalas HADS, que são instrumentos reconhecidos para detectar depressão e ansiedade como comorbidades em doenças neurológicas. Como encontramos já em uma fase inicial da pesquisa uma alta taxa de prevalência de depressão e ansiedade entre os pacientes e decidimos aplicar uma variante das escalas Beck para suicídio que são muito simples e têm caráter exploratório em relação ao comportamento de ideação suicida. Paralelamente tivemos em nossa coorte geral de pacientes com EM casos de tentativa de suicídio e um caso de suicídio e isto também nos preocupava muito.

Qual a prevalência de ideação suicida em pessoas com esclerose múltipla ao redor do mundo?

A prevalência de ideação suicida ao redor do mundo é alta em pessoas com EM quando comparada à população geral. Esta taxa é mais alta quando mensurada entre pacientes com EM e depressão e ansiedade. Há estudos dos países nórdicos com taxas semelhantes ao de nosso estudo entre 2 e 3 % de risco de ideação suicida. Outras pesquisas como um inquérito canadense recente encontrou uma taxa de até 8,3% de risco de ideação suicida entre os pacientes com EM.

Como foi a percepção dos investigadores deste estudo da receptividade dos pacientes ao serem abordados acerca de ideação suicida, tema que ainda é pouco discutido no Brasil?

A receptividade dos pacientes com EM para participar de inquéritos em geral é boa. A pouca frequência em participação em pesquisas clínicas em que dedicamos tempo adicional aos pacientes pode ser um fator que explique este fenômeno. Outro ponto importante é que os pesquisadores de minha equipe e dos centros que colaboraram nesta pesquisa são os mesmos da equipe multidisciplinar de assistência à estes pacientes, o que envolve uma relação de confiança muito importante em inquéritos que envolvem temas como depressão, ansiedade e ideação suicida.

Este estudo identificou 2,1% de ideação suicida nas pessoas com esclerose múltipla, um número muito inferior que em outros países. Como você explica esta diferença?

Discordo em parte de sua colocação pois como citei acima os estudos recentes de Brenner e colaboradores da Suécia e de Ellassen e colaboradores da Dinamarca encontraram riscos de tentativa de suicídio ente 2 e 3% e uma pesquisa de Lewis e colaboradores no Reino Unido infere o risco relativo de 3,16% de ideação suicida. Há um inquérito canadense de Viner e colaboradores que detectou 8,3% de ideação suicida. Porém uma das explicações desta diferença pode ter sido a estratificação de grupos ou o tipo de instrumento utilizado ( no caso do estudo canadense foram utilizadas os questionários PHQ 8 e PHQ 9) que tem discretas diferenças da escala BSI de Beck por nós utilizada aqui no Brasil. Por último observamos que a prevalência de depressão é maior em países do hemisfério norte o que é significativo como também mostrou nosso estudo como fator no aumento da taxa de ideação suicida.

O que sugere para aqueles que trabalham diretamente com pessoas com esclerose múltipla no tangente a identificação de fatores de risco para tentativa de suicídio? O neurologista está preparado para lidar com este tema sozinho?

Nossa sugestão é que os neurologistas identifiquem entre seus pacientes com EM àqueles com tendência à ansiedade e depressão persistente e tenham sempre referências para encaminhamento de profissionais de psicologia e psiquiatria. A situação ideal seria o trabalho em equipe multidisciplinar com o acompanhamento psicológico constante de todos os pacientes.

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Fonte: Academia Brasileira de Neurologia >>Click Aqui<<

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