O zumbido é uma condição comum na população adulta, relatada pelos indivíduos acometidos como uma percepção de barulho, ruído e som no ouvido ou, ainda, dentro da cabeça sem que haja uma fonte de som externa, como um “som fantasma”. É tipicamente descrito como um som de assobio, apito, sopro ou sibilação em um ou ambos ouvidos e acredita-se que resulte de uma atividade neural anormal em algum ponto ou pontos da via auditiva. 

O zumbido pode ser objetivo ou subjetivo. O primeiro refere-se à percepção do som que também pode ser ouvido pelo examinador, entretanto, no subjetivo o som é ouvido apenas pela pessoa que o experimenta. 

Sabemos que o zumbido afeta entre 5% e 43% da população em geral e a prevalência aumenta com a idade. Pode surgir de forma aguda, recuperando-se espontaneamente dentro de minutos a semanas, mas é considerado crônico e improvável de se resolver espontaneamente, quando persiste por mais de três meses. Em aproximadamente 90% dos casos, o zumbido crônico é comórbido com algum grau de perda auditiva mensurável, o que agrava o nível de incapacidade. 

Nestes casos de zumbido persistente, outras queixas e comorbidades podem surgir e agravar a situação clínica, como insônia, dificuldade de concentração, dificuldade de comunicação e interação social, desencadeando respostas emocionais negativas, como ansiedade e depressão. 

Assim, dificuldade em iniciar e manter o sono, além da má percepção da qualidade do sono são frequentemente encontrados em pacientes com zumbido. A prevalência de insônia varia de 28% a 76% dos pacientes com zumbido. 

As causas exatas do zumbido permanecem obscuras, mas fatores de risco são descritos, como exposição ao estresse, envelhecimento, perda da audição, exposição ao ruído, depressão, privação de sono, consumo de tabaco, diabetes mellitus, doenças da tireoide, cardiovasculares e imunológicas. 

Portanto, zumbido e situações que causem sono de má qualidade ou privação de sono parecem ter uma  retroalimentação danosa, levando a uma possível reação em cadeia – zumbido causa estresse, o último ativa a hiperexcitação e esta desencadeia mais o zumbido e a insônia. No entanto, a insônia e o sono de má qualidade geram estresse que agrava ou associa-se ao zumbido, e o ciclo se perpetua. 

Não existe um procedimento padrão para o diagnóstico e o tratamento do zumbido. Idealmente, devemos buscar um gerenciamento abrangente multidisciplinar dos quadros de zumbido e de possíveis transtornos do sono associados, com estratégias que visem a avaliação ampla do paciente, educação e aconselhamento do mesmo quanto à sua saúde global e do sono, além de estilo de vida. 

As estratégias clínicas incluem higiene do sono, terapias de relaxamento, terapia de retreinamento de zumbido (TRT), terapia cognitivo-comportamental (TCC), enriquecimento de som usando geradores de som no nível do ouvido ou aparelhos auditivos e terapia medicamentosa para controlar sintomas comórbidos, como insônia, ansiedade ou depressão. 

Até o momento, nenhum medicamento foi aprovado para o zumbido por um órgão regulatório (por exemplo, European Medicines Agency ou Food And Drug Administration). Muito importante ressaltar a orientação de medidas para redução do estresse de forma ampla, havendo uma variedade de terapias de relaxamento, ioga, meditação, entre outras, além de atividade física e alimentação saudável. Esta equipe inter ou multidisciplinar dos sonhos contaria com profissionais da Medicina do Sono, fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, nutrição, fisioterapia e educação física.

Clélia Maria Ribeiro Franco

Clélia Maria Ribeiro Franco. Neurologista, médica do Sono, membro da ABSono – regional Pernambuco. REFERÊNCIAS : Aazh H, Danesh A. Tinnitus and Insomnia: Management via Audiologist-Delivered CBT. The Hearing Journal. 73(6):14,15, June 2020 . Izuhara K, Wada K, Nakamura K, Tamai Y, Tsuji M, Ito Y, Nagata C. Association Between Tinnitus and Sleep Disorders in the General Japanese Population. Annals of Otology, Rhinology & Laryngology 122(11):701-706. 2013 . Koning HM. Sleep Disturbances Associated With Tinnitus: Reduce the Maximal Intensity of Tinnitus. International Tinnitus Journal, 23(1):64-68. 2019 . Lu T, Li S, Ma Y, Lai D, Zhong J, Li G, Zheng Y. Positive Correlation between Tinnitus Severity and Poor Sleep Quality Prior to Tinnitus Onset: a Retrospective Study. Psychiatric Quarterly. 91:379–388. 2020. https://doi. org/10.1007/s11126-019-09708-2 Sereda M, Xia J, Scutt P, Hilton MP, El Refaie A, Hoare DJ. Ginkgo biloba for tinnitus. Cochrane Library. 2019. https://doi.org/10.1002/14651858.CD013514

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Texto publicado na Revista Sono – UMA PUBLICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO SONO – EDIÇÃO 25

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